TI Kaxarari: população teve que respirar um ar com poluição 17 vezes acima do seguro

Fogo em território indígena em Rondônia. Foto: Observa RO
Fogo em território indígena em Rondônia. Foto: Observa RO

Reportagem do InfoAmazônia revela que a TI Kaxarari teve que conviver durante meses com índices de poluição do ar muito acima dos limites seguros para a saúde humana.

As queimadas liberam gases como dióxido de carbono (CO₂), metano (CH₄), monóxido de carbono (CO) e óxido nitroso (N₂O) para a atmosfera, fato que contribui para o efeito estufa. Além desses gases, uma quantidade de material particulado (PM) também é emitida e transportada pelo ar.

Durante uma queimada, é comum vermos fuligem sendo carregada pelo ar. A fuligem é um tipo de material particulado, mas existem outros materiais particulados que não são visíveis a olho nu e podem ser inalados durante a respiração, alojando-se nos pulmões ou até alcançando a corrente sanguínea, como é o caso do PM2,5.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o limite médio de inalação do PM2,5 considerado seguro é de 15 µg/m³. Se o nível de PM2,5 ultrapassar 35 µg/m³ durante um período de 24 horas, o ar pode ser considerado insalubre e pode causar problemas para pessoas com doenças respiratórios, como asma. A exposição prolongada a níveis acima de 50 µg/m³ pode levar a problemas de saúde ainda mais graves ou até a mortalidade prematura. Estudo indicam que a exposição prolongada a partículas finas podem estar associada a maiores taxas de bronquite crônica, redução da função pulmonar e aumento da mortalidade por câncer de pulmão e doenças cardíacas (ARBEX, 2012).

Aqueles que vivem em regiões de grande volume de queimadas tem de conviver com seus efeitos sobre a natureza, os serviços ecossistêmicos e a saúde. Neste contexto, aqueles que não vivem nas áreas centrais das cidades acabam sendo invisibilizados, sobretudo as comunidades rurais, indígenas e quilombolas.

A reportagem especial publicada pelo InfoAmazônia revela essa invisibilização dos pequenos vilarejos, populações rurais, territórios indígenas e quilombolas na Amazônia que durante a temporada do fogo de 2024 precisaram conviver/sobreviver a índices de poluição do ar muito superiores ao considerado seguro.

TI Kaxarari: “a gente não respirava o ar, o oxigênio, só a fumaça”

O seguinte trecho é um recorte da reportagem original:

A aldeia Buriti faz parte do território [Terra Indígena Kaxarari], junto com outras dez: Marmelinho, Barrinha, Nova, Txakubi, Central, Paxiúba, Pedreira, Kawapu e Extrema. 

Em setembro, quando ativistas e organizações sociais criaram campanhas para denunciar a fumaça nos centros urbanos da Amazônia, Buriti atingiu uma média mensal de 100 µg/m³ de material particulado fino. Entre julho e outubro, foram 96 dias com uma poluição acima do limite recomendado pela OMS. Na época, em 31 de agosto, a aldeia chegou a registrar uma média diária de 264 µg/m³ — 1.660% acima do considerado seguro.  

A poluição só começou a baixar na aldeia Buriti a partir de novembro, quando caiu para 10 µg/m³, e para 7 µg/m³, em dezembro. 

A TI Kaxarari registrou 1.287 focos de calor de julho a dezembro de 2024, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), sendo 7% (94) dentro da terra indígena e os outros 93% nos 10 km ao redor do território. Nesse raio perto do limite, há 555 processos de certificação de imóveis rurais aguardando análise para validação.  

Mapbox com média de PM2,5 de julho a dezembro de 2024. Fonte: InfoAmazônia.

“Até cinco anos atrás, era muito bom aqui, mas hoje os fazendeiros passam com seus aviões jogando agrotóxicos, que acabam chegando na nossa aldeia. Nossas castanhas estão mais secas, e o nosso buriti não dá mais em tantas árvores como antes”, conta o cacique Manoel Kaxarari, da comunidade Buriti.  

Maiza Soares, do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Modos de Vida e Culturas Amazônicas (GEP Cultura), da Universidade Federal de Rondônia (UNIR), é uma pesquisadora do povo Kaxarari. Ela esteve na comunidade em outubro do ano passado. 

“Eles estão sendo comprimidos pelas grandes fazendas. Quando você olha ao redor, chegando pela estrada, vê, de um lado, a mata virgem [da terra indígena] e, do outro, fazendas com gado”, explica. 

A vice-cacica Raimunda Kaxarari, da Buriti, conta que ela, seu marido e seu pai ficaram doentes por causa da fumaça. Enjoo e dor de cabeça foram alguns dos sintomas. Nos piores meses, o caos foi geral. A região de Lábrea registrou 39.2ºC, quando a temperatura esperada era de 32ºC. A comunidade não tem energia elétrica. Sem o vento e o ar limpo da floresta, os dias e as noites foram ainda mais difíceis.  

“Foi bastante fumaça, uma fumaça abafada. A gente não respirava o ar, o oxigênio, só a fumaça. Não foi só aqui. Em todas as nossas aldeias foi um verão difícil”, contou.  

Fronteiras do desmatamento: AMACRO, MT e PA

Os meses de agosto e setembro tiveram as maiores médias de poluição do ar de 2024. Essa poluição se concentrou exatamente sobre à Fronteira Agrícola, fato que evidencia a correlação entre a abertura de áreas para o agronegócio na Amazônia com o desmatamento e a emissão de gases e material particulado.

Entre agosto e setembro a poluição pairou sobre os estados do Acre, Amazonas, Rondônia e Mato Grosso, nos três primeiros, a concentração ocorreu na região da AMACRO. Já e, novembro o foco da emissão foi o estado do Pará.

Médias mensais de PM2,5 entre agosto e novembro de 2024. Fonte: InfoAmazônia.

Tais fatos revelam que o projeto de expansão do agronegócio brasileiro sobre a Amazônia, nos moldes atuais, viola para além da floresta. Há um atravessamento de impactos sobre os territórios, seus habitantes e a saúde humana.

A reportagem completa pode ser acessada no seguinte link: Invisíveis da fumaça: comunidades da Amazônia enfrentam níveis extremos de poluição do ar em ano de seca recorde. A reportagem faz parte da Rede Cidadã InfoAmazonia e foi produzida na Unidade de Geojornalismo InfoAmazonia, com apoio do Instituto Serrapilheira.

Referências:

ARBEX, M. A.; SANTOS, U. P.; MARTINS, L. C.; SALDIVA, P. H. N.; PEREIRA, L. A. A.; BRAGA, A. L. F. A poluição do ar e o sistema respiratório. In: J. bras. Pneumol. 38 (5). Out 2012. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/S1806-37132012000500015>. Acesso: 19 mar 2025.

PEREIRA, J. Invisíveis da fumaça: comunidades da Amazônia enfrentam níveis extremos de poluição do ar em ano de seca recorde. InfoAmazônia. 11 mar 2025. Disponível em: <https://infoamazonia.org/2025/03/11/invisiveis-da-fumaca-comunidades-da-amazonia-enfrentam-niveis-extremos-de-poluicao-do-ar-em-ano-de-seca-recorde/>. Acesso: 19 mar 2025.

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